Crystal Days é um espaço reservado para a discussão dos mais diversos tipos de cultura, seja ela literária, musical, cinematográfica, religiosa, étnica, hábitos, dança, moda, gastronomia, invenções,... Enfim, todo tipo de cultura cotidiana influenciável ou autoconhecimento de forma ampla. A cultura nada mais é do que a identidade de um grupo em um território e num determinado período. A capacidade de produção cultural é o que diferencia os seres humanos dos animais racionais.Espero que este espaço seja aproveitado por todos que aqui passarem da melhor forma possível.Sejam todos muito bem-vindos!







terça-feira, 25 de maio de 2010

A mulher de 30



“Uma mulher de trinta anos possui irresistíveis atractivos para um homem. (…) Uma jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência, e o sexo é demasiado cúmplice do seu amor para que um jovem possa sentir-se lisonjeado por ela, enquanto que uma mulher conhece toda a extensão de sacrifícios a fazer. Naquilo em que uma é atraída pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede, a outra escolhe. Esta escolha não é já uma imensa lisonja? Armada de um saber quase sempre pago, caramente, por sofrimentos, ao dar-se, a mulher experimentada parece dar mais que ela mesma; enquanto que a rapariga, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar, nada apreciar; ela aceita o amor e estuda-o. Uma instrui-nos, aconselha-nos numa idade em que gostamos de nos deixar guiar, em que a obediência é um prazer; a outra quer tudo aprender e mostra-se ingénua naquilo em que a primeira é terna. Aquela só vos apresenta um triunfo, esta obriga-vos a combates perpétuos. A primeira só tem lágrimas e prazeres, a segunda voluptuosidades e remorsos. Para que uma rapariga seja a amante, deve estar muito corrompida, e abandonamo-la então com horror; enquanto que uma mulher possui mil maneiras de conservar ao mesmo tempo o seu poder e a sua dignidade. Uma, demasiado submissa, oferece-vos as tristes seguramças do repouso; a outra perde demasiado para não pedir ao amor as suas mil metamorfoses. Uma desonra-se sozinha, a outra mata para vosso benefício uma família inteira. A rapariga só tem um atractivo, e pensa ter dito tudo quando despiu a roupa; mas a mulher tem inúmeros e oculta-se sob mil véus; enfim ela acaricia todas as vaidades, e a noviça não adula senão uma. Além disso, na mulher de trinta anos excitam-se indecisões, terrores, choros, perturbações e tempestades, que não se encontram nunca no amor de uma rapariga. Chegada a esta idade, a mulher pede a um jovem para lhe restituir a estima que lhe sacrificou; ela só vive para ele, ocupa-se do seu futuro, deseja-lhe uma bela vida, torna-lha gloriosa; ela obedece, suplica e comanda, rebaixa-se e eleva-se, e sabe consolar em mil ocasiões em que a rapariga só sabe gemer. Enfim, além de todas as vantagens da sua posição, a mulher de trinta anos pode tornar-se rapariga, representar todos os papéis, ser pudica, e embelezar-se até com um desgosto. Entre ambas encontra-se a incomensurável diferença que vai do previsível ao imprevisível, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a rapariga, sob pena de não existir, nada deve satisfazer.”



Balzac (A Mulher de Trinta Anos)

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